Este livro nasceu da experiência do repórter Chico Barbosa e do fotógrafo Tuca Reinés como passageiros no trem da Estrada de Ferro Carajás (efc), durante o semestre de 2025. Embora o meio de transporte seja o fio condutor da história, a narrativa não se limitou ao personagem principal. O ambiente também contou, e muito. Ferrovia, estação, paisagem e pessoas se somam ao enredo, tendo como foco a perspectiva de quem utiliza ou é impactado pela presença e pelos serviços associados aos trilhos.
Inaugurada em 1985 para transportar o minério extraído da Serra dos Carajás, no Pará, ao Porto de Ponta da Madeira, em São Luís, no Maranhão, a via férrea também opera, desde 1986, com o trem exclusivo de passageiros, transformando o modo de vida naquela região, em termos sociais, econômicos, culturais e turísticos.
Para entender o que a efc representa na vida das pessoas e das comunidades da região, nada melhor do que pôr os pés na estrada, melhor dizendo, em termos figurados, pôr os pés nos trilhos. Uma história e tanto que, vivida, migrou para as páginas de um livro.
Tome o seu assento, e boa viagem! Ah, segura a partida mais alguns minutinhos.
Ainda recorrendo à dramaturgia, o trem, como ator central, e os coadjuvantes, nas figuras de ferrovia, estação, paisagem e pessoas, povoam o imaginário social e cultural. A literatura e principalmente a música são os territórios mais visíveis em que eles atuam. Dá até para montar uma trilha sonora como aquecimento, antes de começar este passeio. Quer ver só? Digite a palavra “trem” no serviço de streaming de música, e virão canções emblemáticas que trazem como tema essa máquinaencantadora.
Em uma rápida pesquisa, aparece Trenzinho do Caipira (1930), de Heitor Villa-Lobos, que, em 1976, ganhou tocante poema de Ferreira Gullar: “Lá vai o trem com o menino/Lá vai a vida a rodar/Lá vai ciranda e destino/Cidade e noite a girar”. Dois anos depois, Edu Lobo criou arranjo e gravou a música, que entrou de vez no repertório popular. Mais exemplos da magia do trem em canções: Trem das Onze (1964), de Adoniran Barbosa; O Trem Azul (1972), de Lô Borges e Ronaldo Bastos; Trem das Sete (1974), de Raul Seixas; Trem das Cores (1982), de Caetano Veloso; Um Trem para as Estrelas (1988), deCazuza e Gilberto Gil.
Cabe um destaque a O trem de ferro (1936), poema de Manuel Bandeira musicado por Tom Jobim, em 1984. Construído de maneira a criar um ritmo acelerado, os versos do poeta modernista mimetizam o barulho de um trem em movimento, utilizando repetições e onomatopéias. A linguagem, coloquial, retrata a velocidade e o cenário vistos pela janela do trem, em uma descrição que, aqui, pode ser lida como uma piscadela para o nosso projeto: “Passa ponte/Passa poste/Passa pasto/Passa boi/Passa boiada/Passa galho”.

