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Quando 1 + 1 é mais que 2

Por Chico Barbosa

Embora alguns dos livros que escrevi tenham sido em coautoria, em praticamente todos coube a mim, sozinho, a criação do projeto editorial e a produção do texto final. Sim, o conteúdo nasceu a partir de entrevistas que fiz com os personagens centrais da obra, a partir de pesquisas e de conclusões minhas, por fim. Entretanto, por serem pessoas notáveis em seus campos profissionais, com total domínio e autoridade sobre o tema do livro, que muitas vezes tratam de suas próprias vidas, é natural que eles também tenham  responsabilidades pela autenticidade da informação. Logo, faz todo sentido que a criação literária receba os créditos de dois autores, nem que seja um pela construção e o outro pelo acabamento.

Foi assim com o livro “O acaso favorece quem se prepara”, que toquei em parceria com o economista Maílson da Nóbrega (Saraiva, 2014); foi assim com “Carnes & Churrasco, por Marcos Bassi” (Senac, 2012); e também foi assim com “Não faça cerimônia, tente outra vez” (Saraiva, 2015), que desenvolvi com a consultora de comportamento Cláudia Matarazzo. Claro que os coautores também “meteram a colher”, sugerindo cortes, enxertos, ajustes, mudanças de rumos. Mas, em última instância, o “estilo” tinha a minha assinatura — para o bem e para o mal, admito. Em “Na mesma Sintonia” (2008, Senac), com Orlando Duarte, o radialista me entregou metade do livro pronto e eu apenas editei o trabalho e intercalei o material com um grande entrevista que permeia o livro.

Escrevi lá no primeiro parágrafo a palavra “praticamente” porque há uma exceção neste meu histórico de trabalho em coautoria. Quando apareceu a oportunidade de escrever a história da empresa de telecomunicações GVT, que resultou no livro “Sobre Fibras e Gente” (Sextante, 2014), foi-me sugerido fazer esse trabalho em coautoria com o consultor e professor universitário Bruno Fernandes. Porém, ele não entraria apenas com o conteúdo, e sim também com a forma. A proposta tinha seu sentido. Além de ter ter prestado serviços para a GVT por anos, portanto conhecedor da sua “engrenagem”, Bruno é escritor também, com livros publicados na área acadêmica.

De imediato, confesso, achei a proposta bem estranha. Primeiro, porque eu nunca havia visto Bruno na vida. Não conhecia seu trabalho, seu jeito de trabalhar, sua forma de comprometimento, seu temperamento, sua escrita, absolutamente nada — minto: sabia que era um profissional de mão cheia, segundo relatos que apurei. O segundo motivo para achar aquela parceria descabida, pensei, era como ia escrever o livro a quatro mãos, se em duas já é complicado? Vai ficar parecendo uma colcha de retalhos. E, para completar, eu moro em São Paulo; Bruno, em Curitiba. Como vamos nos encontrar para aparar as arestas?

Passado o impacto inicial, resolvi, meio contrariado, pagar para ver. Afinal, não é todo dia que aparece a oportunidade de contar um história empreendedora de sucesso, com possibilidade de conhecer os bastidores do que se configurou como uma das maiores trasações de negócio no Brasil. Resumo aqui: em 1999, dois empresários, sem experiência em telecomunicações, criaram a GVT. Contrariando as probabilidades, a startup ganhou relevância. Transformou-se de um empreendimento de 100 mil reais em uma empresa de 25 bilhões de reais, quando foi vendida para a Telefônica.

Dando continuidade às negociações do trabalho, fui apresentado ao Bruno e, apesar de experiências diferentes, nos demos bem. Era notório o esforço mútuo de cordialidade. Ele me dizia que, na vida acadêmica, era comum produzir trabalhos em equipe. Do meu lado, disse que não me caberia o papel de dono da narrativa; olhares diferenciados dariam um caráter multifacetado à obra.

Pensei comigo — e talvez ele consigo: primeira etapa vencida. Batemos o martelo, e tentamos criar um método de produção. Na medida do possível, faríamos todas as entrevistas juntos. Assim, não ficariam eventuais buracos que um ou outro pudesse sentir na apuração. Na hora de colocar no papel (melhor dizendo, na tela), cada um escrevia uma parte. As histórias, digamos, mais jornalísticas, eram automaticamente minhas; as que envolviam mais conhecimento técnico, ficavam com ele. Depois que cada um fizesse uma primeira versão para o texto, passava para o outro, que tinha total liberdade para fazer as alterações e, em se precisasse, defendia seu ponto de vista com o outro.

Parece estranho, eu sei. Também fiquei receoso que não desse certo. Mas saiba que o nosso bate-bola literário acabou enriquecendo os textos, porque trouxe a diversidade, o contraditório, o diálogo para a edificação da obra.

Quando acabou tudo, durante a apresentação do livro, perguntavam-nos se essa dobradinha não havia criado contratempos. Ensaiamos até uma resposta padrão. Brincávamos, dizendo que, de tão afinados que estávamos, quando um discordava com o outro a respeito de um problema do texto, ele era alertado: “Calma lá, quem escreveu isso foi você, não eu…”.

Enfim, se não nos tornamos amigos, somos algo próximo disso.

Conto esta história apenas para exemplificar que não vale a pena ficarmos fechados para outros formatos de trabalho, diferentes do que estamos habituados. Digo isso de cátedra. Jornalista, de modo geral, não gosta muito de dividir a autoria do texto. Não tenho procuração para falar pela categoria, evidentemente. Mas, sendo um profissional da área e convivendo com meus pares, não tenho receio de fazer esta observação de forma categórica.

Minha experiência me mostrou que, pelo bem do resultado final, às vezes convém se desprender de certas vaidades, receios e verdades absolutas e avaliar que algumas trocas em métodos consumados nos enriquecem — como pessoas e como profissionais. Um mais um, enfim, é mais que dois!

* Texto publicado originalmente no LinkedIn em 18/04/2017, com o título “Escrever em coautoria nem sempre é simples, mas a experiência agrega”. Reproduzo-o aqui, com pequenas alterações, porque ele continua atual e está em perfeita sintonia com a proposta de trabalho da CBNEWS.

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