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O caminho se faz

Por Chico Barbosa

Quando se pensa em escrever um livro, geralmente se tem em mente uma pré-estrutura do que será o produto final. Imaginamos a ordem dos capítulos, sobre o que cada um deles irá tratar, se a narrativa será divida cronologicamente, se será separada por temas específicos, se vai e volta no tempo, se vai ser fragmentada, contínua, e assim por diante. Não existe uma fórmula. Estou citando aleatoriamente, e, claro, cada um tem o seu método — ou não tem método algum, assumamos.

Mas este não é o ponto central aqui. Minha experiência ao escrever livros tem demostrado que o resultado vai ser bem diferente do planejado. Quando se começa a fazer entrevistas, pesquisas, quando se começa a refletir em cima de tudo, o livro vai tomando vida própria. E muitas vezes essa consciência se dá no momento da própria escrita, aos 45 minutos do segundo tempo.

Ao darmos seguimento à história, acabamos nos inspirando por um fato correlato ou por um “causo” curioso que merece abrir o texto, que nos leva à outra linha de raciocínio, e a coisa anda — ou desanda. Quando nos damos conta, a história ganhou vida e nos sentimos apenas o instrumento para dar o acabamento. Porque o corpo já está lá, vivinho da silva.

Considerando todas essas variantes que envolvem o levantamento de matéria-prima para esculpir a obra, a entrevista, no meu caso, é o desencadeador das maiores mudanças na estratégia programada, de rumo, de enfoque, às vezes até de humor. O personagem nem sempre tem consciência de que é dono de uma informação, uma observação, ou descoberta preciosa.

Entre tantos entretantos, quando ele fala de forma descompromissada, como se estivesse fazendo a introdução para o principal, ou observa algo enquanto está nos servindo um café, olhando pela janela, para o teto, ocorre de expor aquela palavra ou aquela frase ou aquela pergunta ou aquela firmação que será a chave do cofre. Daí, a única atitude que nos resta é esquecer o programado e planejar uma nova abordagem, uma nova estrutura, uma nova lógica para o texto. Que, como bem sabemos, pode mudar tudo no momento em que valor colocar tudo na tela ou no papel.

Eis a aventura da escrita. O que vai sair, só depois de pronto que conhecerem. Ou, dito de forma poética, me aproprio das palavras do poeta espanhol Antônio Machado: “Caminante, no hay camino; se hace camino al andar” (algo como “Caminhante, não existe caminho; o caminho se descobre ao caminhar”).

 

* Texto publicado originalmente no LinkedIn em 27/04/2017, com o título “O livro sabe o que vai ser antes de nascer. Mas o autor nem sempre desconfia disso”. Reproduzo-o aqui, com pequenas alterações, porque ele continua atual e está em perfeita sintonia com a proposta de trabalho da CBNEWS.

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