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Coffee table book: o livro insinuante

Por Chico Barbosa

Em uma definição curta e precisa, livro de mesa, também chamado de coffee table book, ou vice-versa, é o autêntico livro que “insinua-se ao leitor”, velendo-me das observações de Adorno, um dos maiores expoentes da primeira geração da Escola de Frankfurt, a propósito das alterações pelas quais o mercado editorial vinha passando na década de 1960, contaminado por práticas comerciais e publicitárias de uma ascendente indústria cultural. A foto da modelo Gisele Bündchen segurando o seu Gisele, da TASCHEN, ilustra perfeita e involuntariamente a definição de Adorno.

A denominação coffee table book, tida no Brasil como afetada mas corriqueira, é utilizada de maneira informal e genérica para se referir a títulos identificados sobretudo pelo que ostentam em termos de apresentação e pelo “uso” que se faz deles. Por se tratar de obras chamativas, às vezes espalhafatosas, ficam à mostra, e não acomodadas em estantes, como ocorre com livros convencionais.

Considerando que o “‘conteúdo’ de qualquer meio ou veículo é sempre um outro meio ou veículo”, segundo McLuhan, o livro de mesa atua feito um popstar nos palcos em que o recepcionam, de editoriais de moda, estilo e decoração a livrarias, de empresas a residências, em evidência em cômodos sociais e halls, como recurso para ser percebido, contemplado, folheado e/ou consultado. 

O habitat em que esses livros se estabeleceram, a saber, mesa de apoio em salas de estar e recepções, deu, literalmente, origem ao seu nome, a tal ponto que passou a fazer parte de verbetes. No Cambridge Dictionaries On Line, coffe table book é definido como “a large expensive book with a lot of pictures, intendes to be looked at rather than read”.

Embora tenha equivalência no português a “livro de mesa” – convenhamos, também esclarecedora do objeto e seu meio –, coffee table book tende a ser empregado assim mesmo, em inglês, até em países de outras línguas que não o anglo-saxão, o Brasil incluído – bem entendido: é empregado por quem o “consome”, mas não por quem o produz, porque este julga caricato relacionar uma obra cultural a um bibelô decorativo ou até “kitsch, de gosto duvidoso e sem consistência.

Nas própria literatura há exemplo que faz coro a esse entendimento, a julgar por este trecho do romance O Ruído das Coisas ao Cair, de Juan Gabriel Vásquez, vencedor do Prêmio Alfaguara de 2010: “(…) entre cinzeiros, descansos de copos e livros de mesa (grifo nosso), tudo escolhido por Aura: Colombia desde ele aire, livro volumoso sobre José Celestino Mutis, e outro recente de um fotógrafo argentino sobre Paris (este Aura (…) ganhara de presente)”. Ou mesmo de modo dissimulado, como Tom Wolfe retratou em Radical Chique e o Novo Jornalismo: “Havia ali mármores antigos e com marcas do tempo, madeiras de lei e tapeçarias orientais suficientes para ilustrar um daqueles (grifo meu) livros de Natal de trinta dólares sobre a decoração através dos tempos”.

Aqui, importa menos como ele é chamado e mais onde, como e porque é apresentado: em espaços sociais, sobre superfície visível, de maneira que possa se sobressair pelas particularidades físicas e revelar algo para além dos interesses intelectuais de seu dono. Adotarei, em paralelo à expressão livro de mesa, também o termo coffee table book, porque entendo ser revelador do emprego que se faz desse título, o cenário em que atua e o “espírito” de descontração relacionado a ambos, pontos que desencadeiam esta reflexão. Acho também relevante ser essa a forma em que o consumidor, de modo geral, reconhece esses livros, embora a coffee table, com tal denominação, não faça parte do mobiliário das casas brasileiras como um local específico para apoiar o café ou algo que o valha, de acordo com a sua natureza. 

A utilização de uma superfície criada para depositar a xícara com algum conteúdo quente entre um gole e outro antecede em algum tempo as hoje definidas coffee tables, como informa o site The Origins & Development of The Coffee Table. Em 1750, na Grã-Bretanha, o hábito de tomar chá estava no auge da moda, aumentando a oferta de produtos de todas as formas e materiais. Eram opções altas, funcionando como um balcão.

Com a reconfiguração do mobiliário doméstico, os sofás tiveram laterais e encosto diminuídos. Na esteira dessas mudanças, as mesas de apoio também recuaram. As primeiras coffee tables, como viriam a se popularizar, datam da era Vitoriana, e são ainda altas. O padrão dessas mesas como o conhecemos foi adotado a partir dos anos 1950, baixas para não atrapalharem a imagem dos aparelhos de televisão que, desde então, passaram a fazer parte do ambiente cotidiano e da vida moderna. 

O tempo passou e a força do nome atravessa a função do objeto: com ou sem café para apoiar, apoia o livro; sendo uma mesinha de centro ou mesinha lateral, continua valendo como uma coffee table. Ou então como uma mesa criada especificamente para livros grandes. Que saem dali para posar feito uma top model na passarela.

OBS: Este texto, ligeiramente modificado, faz parte da minha tese de doutorado em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), concluída em 2014, cujo título é “O papel do livro de mesa na sociedade do espetáculo”.

OBS: As imagens que ilustram este texto são de livros da TASCHEN, a mais pop editora de livros de arte do mundo, meu objeto de estudo na pós-graduação

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