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Coffee table book: livro de colecionador

Por Chico Barbosa

Um dos aspectos que abordei na minha tese de doutorado “O papel do livro de mesa na sociedade do espetáculo” — quando eu analisei os coffee table books a partir das obras da editora alemã TASCHEN — foram os livros feitos na medida para os colecionadores. Quer saber mais? Leia o texto abaixo, com uma levada mais acadêmica, mas não muito…

O pensador alemão Adorno afirma que as próprias obras de arte tidas como puras, embora negassem o caráter mercantil da sociedade pelo simples fato de seguirem sua própria lei, ao mesmo tempo eram mercadorias. E explica: “….até o século dezoito, a proteção dos patronos preservava os artistas do mercado, mas, em compensação, eles ficavam nesta mesma medida submetidos a seus patronos e aos objetivos destes”.

Nesse processo de realinhamento das valorizações dos bens artísticos, o filósofo italiano Perniola chama a atenção para as mudanças de avaliações, com a primazia do que ele define como “efeito egípcio”. As obras de arte, desde os setecentos, deixaram de ser um gênero especial, participantes de um mundo superior, mais espiritual e autônomo. “O efeito egípcio, ao contrário, nos faz vê-las como mais participantes do estatuto da ‘coisalidade’ do que as coisas cotidianas: ele afirma a primazia do ‘coisal’ sobre o subjetivo e o ideal”’, afirma Perniola.

Por associação, outra constatação de Perniola pode nos orientar nesta análise de relação do consumidor com o livro como objeto. Alguns visitantes de museus tendem a prestar mais atenção às reproduções, como pôsteres, fotografias e postais, vendidos nas lojinhas, do que nos originais expostos nas salas: “na base dessa orientação, que é aberrante para qualquer connaisseur, não se encontra o privilégio da imagem sobre o original, mas o desejo de comprar, de levar para casa, de colecionar por conta própria a coisa”.

Eis a chave que abre outra porta na nossa discussão: a coleção, uma espécie de antídoto contra a falta de valorização dos bens duráveis da vida moderna, “quando a atenção ao material é precisamente aquilo que está ausente. Rodeados como estamos por uma extraordinária abundância de materiais, seu valor deve ser incessantemente desvalorizado e substituído”, nas palavras do pensador Stallybrass. 

A disposição para se obter um coffee table book a preços exorbitantes, ou mesmo o empenho de muitos para se apropriar de um novo item, que não precisa ser um item novo, passa pelos mecanismos que movem um colecionador em ação. No caso do empresário e bibliófilo paulistano José Mindlin, que foi dono da maior e mais importante biblioteca particular do país, composta por cerca de 50 mil títulos, a motivação foi ter se tornado um leitor voraz desde os 13 anos, quando ganhou seu primeiro livro, conforme reportagem do site Educar Para Crescer. Até pouco mais dos 90 anos, Mindlin lia em média 100 livros por ano, chegando a contabilizar a leitura de seis mil obras. 

Não é um comportamento exclusivo do campo editorial. Segundo o filósofo Baudrillar, “a coleção emerge para a cultura: visa objetos diferenciados que têm frequentemente valor de troca, que são também ‘objetos’ de conservação, de comércio, de ritual social, de exibição – talvez mesmo fonte de benefícios”. Há exemplos de colecionadores dos mais exóticos objetos e quinquilharias, de selo a carros, relógios, bonecas, quadros, e por aí afora. Tendo disposição, paciência, interesse, oportunidade e, em boa parte dos casos, dinheiro, tudo pode ser candidato a ser colecionável e passível de interpretações históricas, sociais, emocionais e até psíquicas. Até mesmo o pai da psicanálise, pode-se dizer, foi “vítima” da sua própria paixão. A última casa em que Sigmund Freud morou, em Maresfield Gardens, Hamstead, Londres, além de livros, como se esperava da intimidade de todo intelectual, estava repleta de antiguidades povoando cômodos, gabinetes, mostruários, cornijas de lareira, mesas e sua famosa escrivaninha, segundo o jornalista Philipp Blom. Baudrillard afirma que um objeto privado de função ou abstraído de seu uso torna-se objeto de coleção, deixando de ser tapete, mesa, bússola ou, puxando para o nosso o objeto, livro: “Quando o objeto não é mais especificado pela função, é qualificado pelo indivíduo: mas, neste caso, todos os objetos se equivalem na posse, esta abstração apaixonada. Um apenas não basta”.

Temos de concordar, porém, que a paixão pelo objeto livro deu ainda mais notoriedade a já notáveis, como o escritor argentino Jorge Luiz Borges e o filósofo alemão Walter Benjamin, a tal ponto que, ao lado de suas atividades profissionais reconhecidas, sempre foram referidos como bibliófilos – além do que suas obras revelam o complexo e apaixonante universo dos livros, leitores e escritores. Borges, no conto “Biblioteca de Babel”, edificou ficcionalmente um habitat próprio para os livros, de dimensões nada modestas: “O Universo (a que outras chamam a Biblioteca) compõem-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexogonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos”. Na peça radiofônica “O que os alemães liam, enquanto seus clássicos escreviam”, escrita e apresentada por Benjamin em 1932, o autor trata da relação do escritor, sua obra e seu público, tendo como pano de fundo o mercado editorial alemão pré-ascensão do nazismo; no ensaio “Desempacotando minha biblioteca”, Benjamin, embora leitor inveterado, transforma o livro em um objeto do desejo, desconectado da sua função e utilidade. 

(…) sua existência (do colecionador) está sujeita a muitas outras coisas: a uma relação muito misteriosa com a propriedade (…) a uma relação com as coisas que não põem em destaque seu valor funcional ou utilitário, a sua serventia, mas que as estuda e as ama como o palco, como o cenário do seu destino. O maior fascínio do colecionador é encerrar cada peça num círculo mágico onde ela se fixa quando passa por ela a última excitação – a excitação da compra. A época, a região, a arte, o dono anterior – para o verdadeiro colecionador todas esses detalhes se somam para formar uma verdadeira enciclopédia mágica, cuja quintessência é o destino do seu objeto.

Adorno era crítico com relação às coleções feitas a esmo, quando possuir um livro se torna mais importante do que a sua leitura, reconhecendo, porém, que isso significa “que os livros dizem algo sem que a pessoa os leia e que, às vezes, isso não é menos importante”. No trabalho em que mapeou diversas formas de coleções, Blom concluiu que, quando se trata de livros, é uma das atividades das mais multifacetadas, porque rica e ambígua: há os que tratam livros como objetos, outros que querem apenas conferir o lugar e data de impressão, há ainda os interessados na edição, na qualidade do papel e no tipo de letra; ou então em primeiras edições, em títulos publicados por um mesmo editor, escritos do mesmo ou ainda escritos de autor; com encadernações em marroquim; livros pequenos, livros grandes, e assim por diante. Durante sua pesquisa, ele ouviu de um empregado de Hemry Sotheran, famoso livreiro antiquário de Londres, uma constatação que faz coro com o veredicto de Adorno acima: “A maioria nunca será aberta; eles são colecionados, não são lidos”. No século XVIII, relata o jornalista, havia quem comprava dois exemplares de cada livro: um para coleção, outro para ser lido. 

Não era um comportamento pontual. O início da bibliofilia se dá entre o fim do século XVII e o começo do século XVIII, quando foi definido o universo do colecionável e conduzida, pelos próprios colecionadores, a história do livro. “Podem ser todos os livros impressos antes de certa data, ou todos os livros que têm o mesmo suporte material, e luxuoso, ou todos os livros que pertencem ao mesmo gênero literário, ou ainda todos os livros saídos da mesma oficina tipográfica etc”, segundo Chartier, um dos maiores estudiosos do livro do mundo. A partir daí, adotou-se o critério da raridade para fazer essa classificação, definindo o colecionável pela série. É quando surgem livreiros especializados que passam a publicar catálogos contendo as obras que estão à venda, trazendo especificidades de cada exemplar. 

Progressivamente, o gosto desses colecionadores será conduzido com mais facilidade (mas não necessariamente) para os objetos mais custosos, fazendo do livro raro um investimento. É uma história paralela que continuará, mesmo que, com os instrumentos da eletrônica, tal empresa de “livros à la carte” proponha “reeditar” para você, em um exemplar único, aquele livro que você procura desesperadamente há anos. Dispor de um texto por esse caminho não dispensará a aquisição, quando aparecer a oportunidade, de um exemplar de sua antiga edição.

Para Chartier, os tempos atuais, de digitalização, massificação, universalização, não impedem a construção de raridades por parte de colecionadores. O coffee table book se encaixa nessa categoria de livros de coleção, ainda que, presumimos, quem os possua não esteja em busca da história por trás de sua concepção ou mesmo nos percursos por onde passou até chegar à sua mão. Até porque as obras das quais estamos falando são novas, adquiridas em livrarias. Mesmo quando provenientes de leilões, como os títulos da TASCHEN (abaixo, a artista brasileira Beatriz Milhazes e a Edição de Colecionador de sua obra), eles são estratégias que partem da própria editora, simultânea aos seus lançamentos no mercado. A relação que o comprador terá com o livro tangencia com a de bibliófilos que saem em busca de peças raras, motivados pelas mais diversas razões. A leitura, no caso de livros dignos de colecionadores ou dos que enquadramos como coffee table book, é o que menos importa. Talvez, nunca venham a ser lidos, mas apenas guardados, possuídos e contemplados, o que não é de se surpreender, a julgar pelas palavras do próprio Walter Benjamin:  

(…) sempre me devolviam, em tempo oportuno, um livro emprestado sem que o tivessem lido. Seria – vocês hão de perguntar – uma característica do colecionador não ler livros? Dir-se-ia que é a maior das novidades. Mas não, pois especialistas podem confirmar que é a coisa mais velha do mundo, e menciono aqui a resposta que Anatole France tinha na ponta da língua para dar ao filisteu que, após ter admirado sua biblioteca, terminou com uma pergunta obrigatória: – E o senhor leu tudo isso, Monsieur France? – Nem sequer a décima parte. Ou, por acaso, o senhor usa diariamente sua porcelana de Sèvres?

Poderíamos dizer que o coffee table book atualiza a visão histórica que se teve dos livros nos primórdios da “espécie”, como um objetivo quase sagrado. “Ter em casa e à mão o que (…) só podia ser visto no templo é muito bom para a demanda, porque os livros incorporam os prestígios do templo. A dessacralização democrática floresce como a simonia: permite a venda de algo que não tem preço”, diz o crítico cultural Zaid.

A artista brasileira Beatriz Milhazes e Edição de Colecionador de sua obra

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